Uma viagem ao passado e ao futuro com a Vista Alegre

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O ambiente é tranquilo. É como se fosse uma pequena aldeia, bem arranjada, e não fosse porque as lojas, o hotel e a fábrica o denunciam, ninguém imaginaria que daquele lugar saem algumas as mais belas peças de porcelana do País. Falamos do Bairro Vista Alegre, perto de Ílhavo.

Dentro da fábrica, o ambiente mantém-se tranquilo, mas sente-se um nível elevado de concentração. É necessária! Afinal ali lida-se com precisão, alta qualidade e sobretudo com amor ao que se faz. Só assim se conseguem produzir peças e pinturas únicas em porcelana que estão de acordo com os padrões de qualidade exigidos. Todas as peças passam por diversos controlos de qualidade e se não estão à altura são partidas, conta-nos Filipa Quatorze, coordenadora do museu da Vista Alegre durante uma visita de imprensa às instalações da fábrica.

Tudo começou em 1824, em Ílhavo, fruto do sonho de José Ferreira Pinto Basto, um português visionário, que desde muito cedo fez da Vista Alegre, parte essencial da história e vida cultural portuguesas. Em Alvará Régio de 1 de Julho de 1824 D. João VI autorizou o estabelecimento da Fábrica de Porcelana da Vista Alegre e em cinco anos a Vista Alegre recebeu o título de Real Fábrica, um reconhecimento pela sua arte e sucesso industrial.

Em 1851, a Vista Alegre participou na Exposição Universal organizada no Crystal Palace, em Londres, e em 1867 recebeu reconhecimento internacional na exposição Universal de Paris. Em 1852, D. Fernando II visitou a Fábrica da Vista Alegre, tendo sido produzida uma baixela completa para a casa real.

Mais tarde, durante a viragem do século, a fábrica passou por um período menos brilhante e só em 1924, com a nomeação de João Theodoro Ferreira Pinto Basto como Administrador-Delegado, é que começou a ressurgir, não só com o crescimento e renovação na área industrial, também com uma revitalização a nível criativo. Estilos modernistas como a Art Deco ou o Funcionalismo revelaram a capacidade de adaptação da empresa às mudanças sociais e estéticas do início de século.

Só em 1935 começa a produção em porcelana, a chamada “rainha das cerâmicas”, composta por caulino (argila pura), feldspato e quartzo.

A partir de meados do século, a Vista Alegre instaura a tradição de peças únicas, como o serviço produzido para a rainha Isabel II, de Inglaterra, e multiplicaram-se as colaborações com artistas contemporâneos. Em 1964 foi inaugurado o Museu da Vista Alegre que está em fase de renovação e que o grupo teve o privilégio de espreitar antes mesmo que os próprios funcionários.

Em 2001 deu-se a fusão do Grupo Vista Alegre com o grupo Atlantis, formando o maior grupo nacional de tableware e sexto maior do mundo nesse setor, o Grupo Vista Alegre Atlantis (GVAA) que mais tarde, em 2009, quando passava por um período económico difícil, com perdas avultadas, foi adquirido pelo Grupo Visabeira e, paulatinamente, tem vindo a recuperar o equilíbrio financeiro.

A proximidade da matéria-prima – o caulino – a boa localização geográfica junto ao braço da ria de Aveiro e a mão-de-obra, levaram à criação da fábrica, a primeira a produzir em Portugal com fundos privados. Além da unidade fabril, existem uma série de infraestruturas que constituem o Bairro Operário da Vila Alegre. Uma iniciativa totalmente privada e filantrópica para uma aldeia industrial, autossuficiente e isolada de outros aglomerados urbanos. A ideia foi do fundador que com o objetivo de albergar os operários que ali afluíam de todo o país. A construção visou incentivar a formação artística dos trabalhadores, através da educação escolar e de atividades culturais, como o teatro ou a banda de música, que ainda hoje podem ser observados no local, que apresenta características bucólicas bem ao gosto de então e imbuídos do espírito artístico que norteou a conceção estética das porcelanas. Numa visão global e humana, o Bairro Operário foi criado ao mesmo tempo que a construção da própria fábrica. Foram construídas casas de habitação para os operários e empregados, um colégio destinado à escolaridade primária e aulas de desenho, pintura e musica, um teatro e uma capela em honra de Nossa Senhora da Penha de França.

A visita à fábrica começa pelo processo de fabrico começa pelo enchimento dos moldes de gesso com a pasta de porcelana líquida. Este processo é o utilizado para peças que são ocas e de formato irregular. É um processo que não dispensa o saber e sensibilidade do oleiro, pois é ele quem decide o tempo de repouso que cada peça precisa para formar a espessura de porcelana. O excesso é depois vazado e as peças ficam a secar dentro das formas. Depois um grupo de mulheres encarrega-se de limpar as peças.

“É preciso tirar os excessos, as barbas e as costuras para que o objeto fique perfeito”, explicou a coordenadora do museu enquanto o grupo observava a destreza do oleiro a retirar as peças dos moldes e as mulheres a lavarem as peças. Nesta fase é que, sem contemplações, uma peça imperfeita é destruída.

Durante a secagem todas as peças são calçadas para garantir a sua estabilidade é, por isso, fundamental que todos os calços sejam cortados à medida das peças. Para evitar que os calços se fundam na peça é aplicado um protetor em alumina, explicou um dos oleiros enquanto colocava um dos calços numa escultura.

Noutra sala entra-se na dimensão do biscuit, do pormenor, das peças de coleção e as mais complicadas, algumas das quais chegam a precisar de mais de uma dezena de moldes, que depois são montadas pelos oleiros. Em média é produzida uma peça e meia por dia. Noutro canto da sala, uma artesã modela, com minúcia e precisão, as pétalas das rosas da peça Flora da Vista Alegre. “São 200 pétalas por peça” diz a artesã.

As peças sofrem duas cozeduras a alta temperatura durante o processo. A seguir à primeira cozedura a peça vai para a vidragem e depois segue a segunda cozedura. A exceção são as peças biscuit que não são vidradas, são polidas manualmente.

Entre as duas cozeduras a peça encolhe de tamanho. Em tempos idos, quando o forno era de tijolo antigo, a cozedura demorava 24 horas. Agora a cozedura demora 7h.

O forno antigo foi desativado em outubro de 2015, com a requalificação. Hoje em dia pode ser visitado.

Depois segue-se a sala da pintura onde de pincel na mão e uma firmeza que vem da experiência, as artesãs vão dando cor às peças. Apenas as peças com maior valor artístico são pintadas à mão, o que exige um trabalho especializado com grande conhecimento da cor e do seu comportamento na cozedura, porque as peças pintadas à mão vão a cozer novamente tantas vezes quanto o número de cores utilizado.

Mas se o processo de fabrico das peças termina ali, o início é fora da fábrica. Poderá ser no ID Pool. Uma residência artística que é ao mesmo tempo uma espécie de incubadora de ideias e projetos que poderão passar à fase de produção. Ali reúnem-se designers estrangeiros que ficam em média três meses a trabalharem nos seus projetos.

Apesar de nem todos os projetos dos estagiários receberem o aval e o selo Vista Alegre, uma vez que é essencial que se enquadrem na identidade Vista Alegre, não faltam exemplos de criações bem-sucedidas e que se tornam autênticos best-sellers, como é o caso do serviço Transatlântica, do designer brasileiro Bruno Jahara, inspirado numa travessia imaginária entre Portugal e o Brasil.

“O Transatlântica é o nosso serviço mais vendido”, disse Nuno Barra, diretor de marketing da Vista Alegre, que acrescentou que o serviço Ornament, de Sam Baron e Butterfly, de Cristian Lacroix ocupam os lugares seguintes.

Quando as peças são comercializadas os designers recebem royalties das vendas. Até agora, desde o início desta “incubadora”, já foram lançadas cerca de 15 peças.

Até agora apenas podem receber até cinco estagiários, mas existe a possibilidade de vir a albergar mais, quando outras casas do bairro sejam reabilitadas.

O processo de revitalização da Vista Alegre e a dinâmica vai mais além da fábrica. No complexo, onde antigamente era a creche, funcionam agora os workshops de pintura onde miúdos e graúdos sentem na pele a dificuldade de pintar em cerâmica vidrada.

O recentemente aberto hotel de 5-estrelas Montebelo Vista Alegre trouxe nova dinâmica. Dos 82 quartos que fazem parte da unidade, 10 estão no antigo palácio onde morava a família do fundador em 1824. O edifício do novo hotel celebra a arte da Vista Alegre em todo o seu esplendor, dedicando cada um dos três pisos a uma parte da produção, sendo no primeiro andar os moldes, no segundo as peças brancas e no terceiro a pintura. De destacar a minúcia da decoração das colunas, que foram pintadas à mão.

Mesmo em frente ao palácio está o pequeno teatro que outrora animava os operários do bairro. Hoje o teatro está sob alçada da Câmara Municipal de Ílhavo que dispõe um programa de espetáculos.

A capela de Nossa Senhora da Penha de França é hoje monumento nacional, data dos finais do século XVII embora as duas torres tenham sido mandadas erigir por José Ferreira Pinto Basto.

Bastou um dia e meio para ficar a conhecer a Vista Alegre por “dentro e por fora”, os visitantes habituais não têm esse privilégio. Esse ficou reservado a apenas alguns. O ShoppingSpirit News foi um deles.

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