Hotel Rural Museu Convento de São Paulo – onde o espírito e a história convivem em harmonia

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A estrada pela Serra d’Ossa, em pleno Alentejo, era sinuosa, estreita e pouco iluminada, pouco apelativa à condução noturna, mas ao chegarmos ao Hotel Rural Museu Convento de São Paulo, onde iríamos passar as duas noites seguintes, todas as curvas e contracurvas foram esquecidas. Soubemos que ali tínhamos encontrado um local que convidava ao recolhimento e ao descanso, um local onde cada um podia fazer as pazes consigo próprio e deixar o stress para trás, o que outrora tinha sido um convento é hoje um hotel, mas que não perdeu a sua aura mística e de retiro.

Ali, embrenhado numa densa paisagem verde, o tempo parecia que não passava, mas por muito devagar que andasse, o relógio não mentia e foi cruel e impiedoso. Quando demos conta, estava na hora de regressar a Lisboa.

O hotel está inserido a meia-encosta da serra, entre o Redondo e Estremoz, numa propriedade com 600he arborizados e ajardinados. Uma autêntica joia escondida no meio do arvoredo que lhe dá um certo ar de mistério que, aliás, que acompanha o convento desde a sua origem.

Lendas e tradições fazem recuar a origem deste convento até ao século IV, de acordo com alguns testemunhos datados do século XVIII, e, a dar razão a estes testemunhos contar-se-iam quatro fundações, a última das quais a atual. As duas primeiras não podem ser comprovadas, mas no último quartel do século XV, a comunidade ali presente recebeu muitos privilégios reais e papais. Porém, a Congregação dos Monges de Jesus Cristo da Pobre Vida, ordem de São Paulo Eremita, apenas foi aprovada pelo Papa Gregório XIII, por uma Bula de 1578, data a partir da qual se renovou o complexo conventual, dando origem ao atual edifício. As obras do século XVIII, mais precisamente em 1796, introduziram, maioritariamente, alterações ao nível decorativo, de acordo com a Direção Geral do Património Cultural.

O convento foi classificado Imóvel de Interesse Público em 1982, incluindo a sua “coleção de azulejos setecentistas, o retábulo fingido da capela-mor, dois fontanários em mármore, uma fonte decorativa e os jardins circundantes”. Por ali passaram algumas figuras célebres como D. Sebastião que ali teria feito as suas orações na sua viagem para o norte de África, D. João IV e D. Catarina de Bragança.

Uma história feita de azulejos

Fomos recebidos com um sorriso acolhedor da rececionista que nos deu todas as informações necessárias e fez o check-in. Tivemos a felicidade de ficar na área museológica do hotel, onde antigamente estavam as celas dos monges, hoje transformados em quartos.

Apesar de haver elevador, preferimos enfrentar a ampla escadaria que dá acesso aos longos corredores, repletos de azulejos, antigamente percorridos pelos habitantes do convento e assim beber um pouco da atmosfera “conventual”. Naqueles corredores de luz baixa, quase que se podiam ouvir, na nossa imaginação, os passos dos monges, o murmúrio das orações, os cânticos vindos da igreja velha ou o restolhar das suas vestes…

Todo o edifício respira história e é um museu-vivo, por isso os hóspedes mais curiosos optam por tentar saber o máximo sobre o local onde estão alojados. O hotel-rural convida à descoberta dos milhares de azulejos datados de 1640 a 1810 com temas bíblicos e do hagiológio cristão que constitui a maior coleção privada de azulejos de Portugal, das fontes florentinas, das telas e de todos os pormenores que fazem deste um local único que é muito mais do que um estabelecimento onde dormir. Não falta informação escrita e mapas para quem pretende fazer uma visita-autoguiada pelo edifício.

Assim um percurso pelo hotel tem obrigatoriamente de passar pelo claustro, onde não faltam as andorinhas e os respetivos ninhos; pela fonte dos noviços; pela fonte do Leão, junto à entrada do Convento; pelo Jardim das Quatro Estações, onde está a Fonte do Dragão, classificada como Monumento Nacional; pela área museológica onde se podem ver em pormenor a coleção de azulejos, diversas telas e objetos antigos. Visitar a antiga igreja onde atualmente são realizados diversos eventos. De destacar os frescos no teto desta igreja.

O Convento de São Paulo foi remodelado em 1993 e hoje em dia é uma unidade hoteleira de 4-estrelas com a classificação de Hotel Rural – Museu, propriedade da Fundação Henrique Leotte.

A sua capacidade de alojamento é de 41 quartos, 17 dos quais instalados nas antigas celas dos monges, cada um com a sua identidade, decoração e enquadramento, mas tendo em comum o conforto que está de acordo com o tipo de hotel que é.

Sendo um hotel que tem por base um antigo convento, algumas das estruturas antigas ainda se mantêm. Desta forma entende-se, por exemplo, que as portas das antigas celas sejam pequenas, o que já não acontece com os quartos e suites fora da área museológica, que apesar de não gozarem do charme do ambiente de museu por estarem fora dessa ala, têm o charme rústico e caloroso de um alojamento confortável em pleno Alentejo onde se tem tudo o que se precisa.

Todos os quartos possuem casa de banho privativa, com mármores de Estremoz, ar condicionado, televisão, telefone. A rede wireless está disponível nos claustros e na zona museológica.

O facto de ser uma unidade que convida ao recolhimento e ao descanso, não quer dizer que não tenha oferta para quem simplesmente não consegue ficar quieto. Assim, depois de “conhecer os cantos à casa”, pode dar umas quantas braçadas numa das duas piscinas para se refrescar e depois descansar na esplanada ou numa das espreguiçadeiras, debaixo de um dos chapéus-de-sol, onde não falta o serviço de bar. Se mesmo assim a atividade é pouca e não pretender ir para fora dali, tem 600he de outras possibilidades. Dar passeios pelos jardins, pelas hortas, sentir o aroma das laranjeiras e dos limoeiros. O convento tem uma série de percursos a pé ou em BTT disponíveis. A opção também pode passar por uma partida de ténis, ou de snooker se a preferência for pela frescura do salão interior, ou do calor da lareira, se for de uma noite fria de Inverno.

A gastronomia não está entregue em mãos alheias. O restaurante Eremita, situado na antiga capela do Bispo, centra a sua oferta na cozinha tradicional alentejana, onde se podem saborear diversos produtos cultivados e criados na herdade como legumes, azeite, borrego, entre outros, e os vinhos da sua garrafeira provêm da região.

Fora de portas

Fora do perímetro do Rural Museu Convento de São Paulo existem inúmeras opções, consoante se opte por virar à esquerda ou à direita na estrada.

As pinturas rupestres da Gruta do Escoural em Montemor-o-Novo, o Cromeleque dos Almendres em Évora, Menires, Antas ou Dolmens espalhados por toda a região são evidências antigas da presença do homem nesta região, podendo ser visitados.

Mais perto, a menos de 10km, no Redondo, podem-se descobrir os usos e costumes que sobrevivem ainda hoje. A não perder a loiça de barro trabalhada pelas mãos dos oleiros.
A cerca de 19km, na direção oposta ao Redondo, ergue-se a cidade branca de Estremoz. A urbe divide-se em duas áreas: a praça alta e a praça baixa. Na alta, destaca-se o casario primitivo, medieval, com o castelo e torre de menagem envolvido pela cintura de muralhas. A paisagem é bastante diversificada com belas zonas planas. Ao sábado de manhã realiza-se uma feira de velharias e não só na praça principal, onde se podem encontrar algumas relíquias. Quando o sol começa a aquecer, o melhor é refugiar-se em alguma das tascas ali perto e deliciar-se com os petiscos.

Jurumenha, a cerca de 41km é outra das alternativas. A fortaleza, habitada até 1920, encontra-se ao longo do Guadiana e percorrê-la é também uma forma de descobrir o Grande Lago de Alqueva.

Além destas opções, existem sempre outras, depende apenas da vontade de partir à descoberta do Alentejo.

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