“O Que não É Teu não É Teu”, os contos de Helen Oyeyemi

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nao-nao-os-contos-helen-oyeyemi_1Nove contos, nove histórias, nove chaves. A chave para uma casa, a chave para um coração, a chave para um segredo — chaves, literais e metafóricas, que não se limitam a abrir momentos das vidas das suas personagens. São chaves, também, a prometer difíceis labirintos que se abrem nos mais inesperados quotidianos.

O Que não É Teu não É Teu marca a estreia da escritora nigeriana e inglesa Helen Oyeyemi no conto, depois de cinco romances muito bem recebidos. E as suas histórias lembram contos de fadas, lições de História, mitos e lendas. Vivem de uma multiplicidade de tempos e paisagens, fazendo com que as fronteiras de realidades coexistentes se toquem. Transformam ladras em heroínas, homens moribundos em pais. Criam bibliotecas de rosas e jardins de livros. Chaves que são portas, oferendas, convites à descoberta de um universo onde a beleza poderá, talvez, existir.

O volume abre com o conto «Livros e rosas», em que a protagonista dá lugar a outra protagonista, descentrando a narrativa. Em «Pedir desculpa não lhe adoça o chá», os comentários de um vídeo do YouTube unem as pontas soltas de uma família em mutação. O conto «O teu sangue é assim tão vermelho?» divide-se em duas faces, a que responde afirmativamente à pergunta e a que a nega. Em «Afogamentos», afirma-se a dúvida: “Isto aconteceu e não aconteceu”, lê-se na primeira linha.

«Presença» fala de implosões de memórias e de passados simulados. «Uma breve história da sociedade das jovens feias» passa-se em Cambridge, onde um grupo de alunas se dedica a “melhorar” as bibliotecas dos clubes masculinos, substituindo livros escritos por homens por obras assinadas por mulheres. «Dornička e a pata do dia de S. Martinho» é uma fábula com muitas entrelinhas. E em «Freddy Barrandov faz o… check-in» um filho que se reconhece incapaz de qualquer feito descobre finalmente o seu maior desejo. A fechar, o conto «Se um livro está fechado à chave, deve haver uma boa razão para isso, não achas?», sobre a amizade e os limites do conhecimento.

«Mas, sempre que entro naquela maldita casa, corro o risco de sair de lá doido. Por causa das portas. Nem sequer se mantêm fechadas, se não estiverem trancadas à chave. E, depois de as fecharmos, ouvimos sons vindos detrás delas; sons que convencem uma pessoa de que deixou alguém encarcerado lá dentro. Mas, quando não fechamos as portas à chave, elas ficam meio abertas, permitindo-nos olhar para a divisão seguinte, dando-nos a ideia de que está alguém a segurá-las de propósito.»

Helen Oyeyemi é uma das grandes revelações da literatura africana e inglesa dos últimos anos. Nascida em Ibadan, na Nigéria, em 1984, cresceu no sul de Londres, para onde os seus pais se mudaram. Como a também nigerianaChimamanda Ngozi Adichie, sempre viveu entre dois mundos, o das suas raízes e o da sua formação académica e literária. Os livros que escreve, as histórias que inventa, os universos que convoca espelham essa pluralidade.

O talento literário de Oyeyemi deu-se a conhecer cedo. O primeiro romance, The Icarus Girl, foi escrito quando ainda frequentava o ensino secundário. Publicou-o em 2005, aos 21 anos, dando início a um percurso fulgurante. Assinou duas peças (Juniper’s Whitening e Victimese) que, levadas à cena pelo grupo de teatro do Corpus Christi College de Oxford, onde cursou Ciências Sociais e Políticas, rapidamente chamaram à atenção da crítica especializada.

A The Icarus Girl, já traduzido em 16 idiomas, seguiram-se os romances The Opposite House (2007), White Is for Witching (2009), Mr Fox (2011) e Boy, Snow, Bird (2011). Distinguida, em 2010, com o Prémio Somerset Maugham e, no ano seguinte, com o The Hurston/Wright Legacy, foi considerada, em 2013, pela revista Granta, uma das melhores jovens escritoras inglesas.

Helen Oyeyemi é uma das muitas apostas fortes da Elsinore, que em 2017 publicará o romance Boy, Snow, Bird.

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