A Diabetes nas Crianças

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A Diabetes Mellitus (DM) engloba um conjunto de doenças que se caracterizam por hiperglicemia (aumento da glicose no sangue) causado por defeitos de produção de insulina, de actuação da insulina ou de ambos. Os sintomas de DM incluem poliúria (urinar muito), polidipsia (ter muita sede), polifagia (comer muito), visão turva e perda ponderal. Na presença do conjunto destes sintomas deve-se efectuar determinação da glicemia capilar com a maior brevidade possível. Se a glicemia for superior a 200mg/dl (ou > 126 mg/dl após jejum de 8 horas) os cuidadores devem dirigir-se imediatamente com a criança/adolescente a um centro de referência ou serviço de urgência para confirmação através de análises de sangue mais específicas e início imediato de terapêutica. Na suspeita de diabetes não se deve ficar à espera do resultado de análises (muitas vezes só disponíveis no dia seguinte), porque na fase inicial cada minuto conta e quanto mas precoce o diagnóstico, menor a probabilidade de complicações agudas (cetoacidose, coma). Nas crianças e adolescentes podem ocorrer vários tipos de diabetes, alguns dos quais muito raros; o mais frequente é a diabetes tipo 1 mas, atualmente, devido a fatores genéticos e alterações do estilo de vida (refeições hipercalóricas e sedentarismo) já existem casos de diabetes tipo 2 em adolescentes. Neste artigo, abordarei brevemente a diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) e focar-me-ei sobretudo na diabetes tipo 1 (DM1).

A DM2 ocorre quando a secreção de insulina é insuficiente por insulinorresistência (secundária a obesidade) e geralmente está associada a outras alterações metabólicas (dislipidemia, hipertensão arterial, síndrome de ovário poliquístico, fígado gordo). A DM2 raramente ocorre antes da puberdade e os adolescentes com DM2 pertencem a famílias com incidência elevada da doença. É fundamental promover um estilo de vida saudável e mudanças comportamentais (alimentares, exercício) de modo a prevenir este tipo de DM.

A DM1 é uma doença caracterizada por deficiência em insulina secundária à destruição das células beta do pâncreas pelo sistema imunitário desencadeada por factores ambientais em pessoas com predisposição genética. A DM1 ocorre geralmente em crianças, adolescentes e adultos jovens. Apesar de globalmente a DM1 constituir menos de 10% dos casos de DM, mais de 90% dos diagnósticos de DM na criança e adolescente são deste tipo. Nas últimas décadas houve um aumento da incidência de DM1 a nível mundial, sobretudo em crianças com menos de 5 anos e nos países em vias de desenvolvimento. Actualmente não existe cura para a DM1 pelo que a vida destes doentes depende da administração diária de insulina. Os pais/cuidadores e a criança/adolescente têm de fazer várias determinações diárias da glicémia capilar (“picar os dedos”) e administrar insulina por múltiplas injecções (“picar a barriga”) ou através de sistemas de perfusão contínua (“bombas de insulina”). A dose de insulina a administrar varia de acordo com a hora do dia, a alimentação (hidratos de carbono ingeridos) e da actividade física. Este tipo de tratamento é denominado tratamento intensivo e tem por objectivo diminuir o risco de complicações tardias da doença (cardiovasculares, nefropatia, retinopatia e neuropatia). É um tratamento com resultados visíveis na saúde, bem-estar e qualidade de vida das crianças/adolescentes mas é exigente requerendo rigor e amor dos cuidadores (pois a tarefa difícil de “dar a injecção” a um filho/neto/enteado/… deve ser encarada como um ato de amor supremo que lhe permite viver). Os avanços tecnológicos (bombas de insulina e monitorização contínua da glicemia) têm permitido que o tratamento se torne mais fisiológico, diminuindo o número de picadas e a existência de um “pâncreas artificial” é o próximo passo.
O Departamento de Crianças e Jovens da APDP é um Centro Referência na Diabetes Pediátrica reconhecido internacionalmente e tem uma equipa técnica multidisciplinar (administrativa, auxiliar acção médica, enfermeiro, médico, nutricionista, psicólogo) que se encarrega de cuidar da criança/jovem e a sua família.

Sofia Castro
Pediatra da APDP

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