Médicos alertam para consequências mortais de campanha pública contra o colesterol e as estatinas

Está em curso uma campanha anti-colesterol e anti-estatinas que atingiu o seu apogeu com a transmissão pela RTP 1 do documentário Colesterol: A grande farsa. Quem o diz é o Prof. Doutor Manuel Oliveira Carrageta, Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, e o Prof. Doutor Ovídio Costa, Diretor dos Cursos de pós-graduação em Geriatria Clínica e Medicina Desportiva da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que se unem para deixar o alerta: “Esta estação pública, na nossa opinião, prestou um mau serviço ao transmitir este documentário, ainda mais sem quaisquer esclarecimentos adicionais contraditórios, apostando exclusivamente nos argumentos que impactam nas audiências e sem tentar estimar outro tipo de consequências para a opinião pública como, por exemplo, o aumento do efeito nocebo – do latim ‘fazer mal’ – e da ocorrência da síndrome de privação das estatinas.”

Para o Prof. Manuel Carrageta, “este tipo de apreciações, em contraponto com o estado atual da arte e da ciência no que se refere à prevenção e tratamento dos acidentes cardiovasculares, são vulgares e insensatas. São argumentos sensacionalistas, com origem em personalidades médicas com pouco reconhecimento científico junto dos pares. Salientamos que estas campanhas podem ter consequências mortais para os doentes de risco, ao pôr em causa uma terapêutica com efeitos benéficos tão claramente demonstrados”.

Devido à campanha anti-colesterol e anti-estatinas que cresce nos média e na internet, os dois especialistas confirmam que têm passado, ultimamente, bastante tempo nas consultas a tentar manter os doentes a fazer ou iniciar terapêutica com Estatinas, uma vez que o receio causado pelo alarmismo desta campanha tem levado alguns doentes a abandonar a terapêutica, com graves consequências para a sua saúde. Mas esta campanha faz mais: origina, por parte de muitos doentes, a suspensão abrupta da medicação com efeitos particularmente nocivos para os que sofrem com doença coronária não estabilizada (síndrome de privação), frequentemente associado ao efeito nocebo, que explica por é que alguns doentes passaram a atribuir de forma errada sintomas só após conhecer os efeitos secundários dos fármacos correta (ler a bula) ou exageradamente divulgados.

“Como seria útil utilizar o poder da televisão para melhorar a saúde pública no nosso país!”, sugere o Prof. Doutor Ovídio Costa. “Se cada pessoa consumisse a partir de hoje menos 2g de sal por dia, a taxa de AVCs diminuiria 30 a 40% nos próximos 5 anos. Ou seja, em média, evitar-se-iam 11.000 casos de AVC por ano. Como seria útil a televisão lembrar-lhes isto, entre outros conselhos para a saúde, todos os dias.”

Será mesmo o colesterol uma grande farsa e as estatinas o maior embuste farmacêutico do século? Se foi esta a questão que ficou na mente de quem assistiu ao programa referido, dar-lhe resposta é fácil: não. “As estatinas foram o maior avanço terapêutico na doença coronária das últimas décadas, juntamente com outros meios, tais como o bypass coronário, a angioplastia coronária e a terapêutica trombolítica na fase aguda do infarto do miocárdio. Atendendo ao facto de estas doenças serem a principal causa de morte na maioria dos países, é fácil percebermo a enorme utilidade destes recursos. Poupam-se milhares de vidas”, conclui o Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

E quanto ao colesterol? A maior probabilidade de regressão da aterosclerose ocorre quando os valores de colesterol LDL (mau colesterol) se situam abaixo de 70, o que corresponde, aproximadamente, a uma taxa de colesterol total de 130 ou, nos indivíduos doentes, apesar de sempre terem apresentado valores normais, uma redução de 50%. Para atingir esses valores alvo é necessário otimizar a dieta e, por vezes, utilizar doses muito elevadas de estatinas, isoladamente ou em associação com outros tipos de medicamentos.

A adoção de um estilo de vida saudável desde muito cedo, associado ao diagnóstico precoce (rastreio) das primeiras lesões ateroscleróticas, assim como o tratamento da doença contribuirão, dentro de poucos anos, para quase erradicar o enfarte do miocárdio e o AVC.

“Salientando que somos reconhecidos defensores das virtudes do estilo de vida saudável, não podemos deixar de referir que as estatinas dispõem de uma sólida evidência que demonstra que o seu emprego em doentes de risco reduz significativamente a morte cardiovascular. Reconhecemos também que as estatinas, como todos os outros medicamentos, podem ter efeitos secundários, mas os benefícios são tão significativos que devemos fazer todos os esforços para que estes medicamentos sejam usados nos doentes apropriados. Hoje em dia, quem põe em causa o uso das estatinas como fármaco de primeira linha no combate à principal causa de morte da nossa população está a negar a utilização de uma classe de fármacos que reduz significativamente o risco de morte cardiovascular”. Para mais, “é conhecido que as grandes companhias farmacêuticas já não promovem as estatinas, que em sua maioria estão disponíveis no mercado como genéricos”, conclui o Prof. Manuel Carrageta.

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