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«O Homem da Nave», de Aquilino Ribeiro

Em O Homem da Nave, Aquilino Ribeiro descreve o camponês serrano ardiloso, orgulhoso e batalhador, que segue os ritmos do ano e da terra, vivendo da caça, do campo, dos pequenos episódios do dia-a-dia. Lê-lo é sermos transportados para aqueles brejos e montes, para aquelas estações inclementes, é sentirmos que percorremos a Serra e conhecemos as pessoas com quem nos cruzamos pelo caminho.

«Compreende-se que o homem que teve a madrigueira na montanha ame a montanha. Ela lhe é dilecta como um lar comum e o alicerce dá sua psique. A montanha criou pois o rebelde crónico e o lobo sem coleira. Nada de tutelas. Vassalos os da planície, que se civilizaram mais depressa e se deixaram penetrar por influências sopradas de todos os quadrantes. Senão repare-se: enquanto o camponês do vale põe a sua gabardine ou trincheira, o serrano guarda a capucha. Aquele calça botifarras à prateleira, o serrano tamancos de encouras, ferrados de grossas brochas poliédricas. Um traz relógio no pulso, outro o cebolão com o pinto à dependura. Ainda se encontra também pelas falperras alpestres o velhote bem-falante e salomónico, ajoujado às vezes de suíças, umas suíças antediluvianas, grisalhas e nédias, sombreando o rosto como duas labaças tropicais.»

Sobre o autor:

Aquilino Ribeiro nasceu na Beira Alta, concelho de Sernancelhe, no ano de 1885, e morreu em Lisboa em 1963. Deixou uma vasta obra em que cultivou todos os géneros literários, partilhando com Fernando Pessoa, no dizer de Óscar Lopes, o primado das Letras portuguesas do século XX. Foi sócio de número da Academia das Ciências e, após o 25 de Abril, reintegrado, a título póstumo, na Biblioteca Nacional, condecorado com a Ordem da Liberdade e homenageado, aquando do seu centenário, pelo Ministério da Cultura. Em Setembro de 2007, por votação unânime da Assembleia da República, o seu corpo foi depositado no Panteão Nacional.