85% dos casos de cancro do pulmão devem-se ao tabaco, mas isto não “assusta” os mais jovens

Para Isabel Maria Magalhães, Presidente da Pulmonale, um dos principais problemas no combate ao tabagismo na população jovem está no espaço temporal entre o momento em que se começa a fumar e o aparecimento de doenças graves, como o cancro do pulmão, em que 85% dos casos se deve ao tabaco. Isto porque, explica, “os jovens consideram que o tabagismo não os vai afetar num horizonte temporal alargado”.

São inúmeras as campanhas anti-tabágicas que alertam a população para esta problemática. Contudo, “há um longo caminho a percorrer para que as mesmas se traduzam de facto em ganhos para a sociedade, sendo necessário um modelo de implementação onde os resultados possam ser mensuráveis”. Ainda assim, é nítido para Isabel Maria Magalhães que os portugueses têm vindo, progressivamente, a conhecer os malefícios do tabaco “tradicional” e da exposição ao fumo passivo, mas no que respeita às novas formas de tabagismo, como o cigarro eletrónico e o cigarro aquecido, a informação é ainda pouco esclarecedora e percebida.

O tabaco está associado ao aparecimento de inúmeras doenças, entre as quais o cancro do pulmão. Com a incidência no nosso país a aumentar, registam-se cerca de 4200 novos casos por ano e é nas mulheres que a incidência mais tem crescido. António Araújo, oncologista, refere que “existe uma relação direta entre o consumo de tabaco (número de anos que se fuma e de cigarros fumados) e o aparecimento de cancro”, alertando também para o risco da exposição ao fumo passivo: “estar exposto permanentemente ao fumo passivo vai aumentar diretamente o risco de desenvolver doença.”


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Os dados estatísticos relativos à mortalidade por cancro do pulmão em Portugal não são claros, uma vez que a mesma é contabilizada em grupo com os tumores da laringe, traqueia e brônquios. Ainda assim, segundo as Estatísticas de Saúde de 2016 do INE, este conjunto é entre os tumores malignos o mais mortífero.

No tratamento do cancro do pulmão começam a ser utilizados, em detrimento da quimioterapia, medicamentos dirigidos a alterações genéticas específicas dos tumores, com taxas de resposta superiores a 70% e com boa qualidade de vida. “No fundo, estes medicamentos vieram trazer ao binómio quantidade/qualidade de vida dos nossos doentes um incremento muito significativo”, explica o especialista.

Para além disso e recentemente, surgiu a imunoterapia, que consiste na modelação do sistema imunológico do doente para que seja este a controlar o cancro, uma terapêutica cada vez mais utilizada. “Em vez de tratarmos diretamente o cancro, estimulamos o sistema imunológico do doente para que este lute contra a doença, tratando-se assim de uma mudança no paradigma do tratamento”, explica António Araújo, acrescentando ainda que, embora apenas 30 a 35% dos doentes respondam positivamente a este tratamento, os que o fazem beneficiam de um aumento na sobrevivência que pode ultrapassar os 4 anos e com uma grande qualidade de vida.

Neste seguimento, também Isabel Maria Magalhães refere que “nos últimos anos tem havido uma evolução no conhecimento desta patologia e nos seus tratamentos, existindo uma mudança de paradigma baseada na medicina personalizada, onde ‘não há doenças, há doentes’.”

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