Foi no fim de semana de apresentação da brochura “𝟱 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗲𝗶𝗼𝘀 𝗻𝗼 𝗔𝗹𝗲𝗻𝘁𝗲𝗷𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗖𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗻𝗼 𝗼𝘂𝘃𝗶𝗱𝗼”que um grupo de jornalistas teve oportunidade de conhecer alguns pontos que fazem parte da mesma. A brochura inclui: Pela Margem Esquerda (Serpa e Mourão); Terras do Vinho (Redondo e Borba); Vinhos de Talha e Fresco (Alvito, Cuba e Vidigueira); Campos Brancos (Beja, Castro Verde e Aljustrel) e Ares da Costa (Ourique e Odemira).
A primeira proposta – Pela margem esquerda, começa por Serpa, considerado – embora não consensualmente – o berço do cante alentejano. Os atributos da cidade de Serpa vão além do seu delicioso queijo DOP ou excelente gastronomia local como o restaurante O Alentejano, em plena praça municipal ou por uma das tabernas como a Taberna da Banda onde, além dos petiscos, pode “esbarrar” com elementos do coro que, eventualmente, irão cantar. A beleza de Serpa passa também pelo castelo imponente, pelo museu do Relógio ou pelo Palácio Ficalho recentemente aberto ao público. Trata-se de uma das poucas casas senhoriais de arquitetura chã a sul de Portugal do século XVII, sendo as visitas guiadas pela proprietária. O nome provém da família Mello, primeiramente senhores que posteriormente obtiveram os títulos nobiliárquicos de condes e marqueses de Ficalho.
Uma das características mais singulares do palácio é o facto de estar edificado sobre a própria muralha medieval de Serpa. Esta localização estratégica permitia ter uma visão privilegiada sobre a planície alentejana e, ao mesmo tempo, reforçava a estrutura defensiva da vila no passado.
Apesar desta característica, o elemento visual mais icónico do palácio é o aqueduto assente sobre a muralha. Construído no século XVII, o aqueduto levava a água desde as noras até aos jardins e às dependências da casa. Já os jardins do palácio são um oásis quando o calor aperta, repletos de árvores de fruto como laranjeiras e figueiras que proporcionam a desejada sombra
O palácio continua a ser propriedade da família e está classificado como Monumento Nacional desde 1946. Atualmente, parte do espaço funciona também como unidade de alojamento com duas suites, podendo parte do espaço ser alugado para eventos. Pode ser visitado mediante reserva e pagamento da entrada.
Outro dos pontos que fazem parte deste roteiro é o Museu do Cante Alentejano, também em Serpa, um espaço que evoluiu da anteriormente existente Casa do Cante e que esteve na génese da candidatura à UNESCO enquanto entidade gestora. O novo espaço, aberto em 2022, agrega vários polos que os visitantes podem explorar, um dos quais o centro interpretativo que alberga uma exposição permanente onde se viaja pela história sendo imperdível para quem quer entender esta arte que mereceu o selo da UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Coordenado por João Matias, o museu tem também exposto um inventário nacional de todos os grupos corais, fazendo a monitorização dos grupos sendo, por isso, uma lista dinâmica já que alguns desaparecem e outros vão surgindo. Normalmente os grupos corais terão entre 20 e 30 participantes, mas há exceções com grupos mais pequenos. O museu alberga ainda um centro de documentação, um auditório e uma loja.
Outros dos pontos de passagem obrigatória é o Museu Etnográfico de Serpa, onde o visitante pode ficar a conhecer antigos saberes, profissões que a evolução do tempo foi apagando e faz um retrato do passado da região.
Mas se o Cante é o fio condutor destes roteiros, o vinho não pode deixar de estar presente. A fama dos vinhos do Alentejo já é grande, mas existe um tipo de vinho menos explorado turisticamente: O vinho de Talha.
Vinho de Talha e Frescos
É o terceiro roteiro proposto na brochura “5 passeios no Alentejo com o Cante no ouvido” e o segundo que tivemos oportunidade de conhecer um pouco. Engloba os concelhos de Alvito, Cuba e Vidigueira e foi no primeiro que conhecemos a Gerações de Talha, uma adega situada na histórica Vila de Frades (conhecida como a “Capital do Vinho de Talha”), um projeto familiar que se dedica a preservar uma tradição com mais de dois mil anos, introduzida pelos romanos no Alentejo.
Como o próprio nome indica, a adega foca-se na passagem de testemunho entre gerações que mantêm vivos os saberes ancestrais deste tipo de vinificação, garantindo que o método não se perde na modernidade. Ao contrário dos vinhos modernos feitos em cubas de inox ou madeira, aqui o vinho é produzido em grandes vasos de barro (as talhas). O processo começa com a introdução das uvas nas talhas começando a fermentação espontânea ao fim de uns dias tendo o cuidado de mexer as massas vínicas todos os dias com um rodo de madeira para evitar que o gás que se forma parta a talha.
Seguindo a tradição alentejana, a “abertura” das talhas ocorre tipicamente no dia de São Martinho (11 de novembro). É neste momento que o vinho é provado pela primeira vez, retirado através de uma torneira colocada na base da talha, onde o próprio engaço da uva serve de filtro natural.
A adega não é apenas um local de produção, mas também um espaço de enoturismo, onde os visitantes podem entrar na adega típica alentejana, realizar provas, fazer experiências uma delas com o cante, e sentir a atmosfera própria de um lugar onde as talhas proporcionam uma visão e perspetiva diferente de uma adega comum.
Saindo do ambiente “fresco” da adega, para o calor do exterior é tempo de conhecer outros “frescos”. Explorar as pequenas ermidas e capelas do concelho de Alvito é como abrir um baú de tesouros escondidos no coração do Alentejo. Não são apenas “paredes pintadas”, mas sim de uma “passagem no tempo” onde as cores ainda vibram. Os frescos de Alvito não surgiram por mero acaso decorativo, foram como parte de uma tradição mural profundamente enraizada na região, especialmente entre os séculos XVI e XVIII. A técnica floresceu porque o Alentejo reunia matérias‑primas locais — cal, areias, pigmentos terrosos e por isso ficava barato.
A técnica usada nas ermidas alentejanas é o chamado fresco verdadeiro, uma das mais antigas e duráveis formas de pintura mural. Baseia‑se na aplicação de pigmentos sobre reboco fresco de cal, permitindo que a cor fique quimicamente presa ao suporte, ou seja fica entranhado no local onde é aplicado, daí a durabilidade. O fresco só se perde pela erosão ou destruição das paredes provocada por fenómenos como o salitre.
Dois dos exemplos de ermidas onde esta técnica é mais gritante estão nas ermidas de São Sebastião no Alvito, e de São Neutel, também conhecida por Santa Águeda.
Muitas destas pinturas estiveram escondidas por baixo de camadas de cal durante séculos, esquecidas, desconhecidas e até protegidas do tempo, à espera do momento de serem redescobertas e restauradas para voltarem a brilhar.
Certo é que esta herança é tão importante que deu origem em 1998, a iniciativas como a Rota do Fresco, um projeto da Spira Lab, que preserva e divulga este património.
Mas melhor do que ler sobre as propostas, é aproveitar uns dias e visitar este Alentejo menos conhecido, mas não menos belo.
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