O mote é lançado pelo Ponto, um dos dois papéis principais do grupo, é aquele que inicia a moda, define o tom e o tempo, cantando os primeiros versos. Depois segue-se o Alto, uma voz que repete a melodia e a canta normalmente uma terceira ou uma décima acima, muitas vezes adicionando ornamentos na música. É o segundo dos papéis principais e a voz orientadora cujo tom sobressai acima do coro em toda a canção. Depois do Alto, a hierarquia segue com todo o grupo coral a juntar-se em uníssono. Um conjunto de vozes graves, afinadas, que saem das entranhas num ritmo cadenciado manobrado pelo corpo, dando volume e corpo sustentando a melodia.
O Cante Alentejano é muito mais do que um género musical; é a alma coletiva sobretudo do Baixo Alentejo. Caracteriza-se por ser um canto coral, tradicionalmente sem instrumentos, interpretado por grupos de homens ou mulheres. O Cante tem uma característica comunitária porque celebra a união e a partilha, é lento e pausado o que reflete o ritmo e o tempo da planície alentejana, bem como a solenidade do momento o que pode ser confundido com tristeza, mas não é verdade, dependendo do avançar das horas na taberna, o cante poderá até ter uma toada mais divertida.
Historicamente, o Cante era a banda sonora do trabalho duro nos campos e nas minas. Não havia guitarras ou outros instrumentos musicais no meio das ceifas, por isso a voz era o único instrumento disponível e cantavam modas que tinham como temas, a vida rural, a natureza, o amor ou a religião. Cantava-se quando iam para o trabalho, quando vinham, nas tabernas, nas festividades religiosas, e a partir de uma dada altura este canto espontâneo que continua a acontecer nas tabernas, passou a ser mais organizado através de grupos corais e a ter ensaios regulares.
Aquando do 25 de Abril, houve uma explosão de grupos corais no Alentejo inspirado com a reforma agrária. Depois, seguiu-se um período de quebra, ressurgindo com o reconhecimento da UNESCO. Atualmente assiste-se a um renascimento do Cante, à transmissão de pais para filhos que se fazia antes no campo, faz-se agora nas escolas e nos ensaios dos grupos corais. O ensino do cante é obrigatório nas escolas do primeiro ciclo no baixo Alentejo. O grupo Rama Verde do Alvito (Vila Nova da Baronia) é um exemplo de grupo coral juvenil de Cante Alentejano.
Esta é a descrição, em poucas palavras, do Cante Alentejano que vimos traduzida com o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, uma versão mais formal do cante, cuja apresentação antecedeu o lançamento da mais recente ferramenta de promoção turística do Alentejo.
Uma segunda linha de promoção
Após 10 anos do Cante Alentejano praticado por grupos corais ter sido reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade, surge uma nova proposta que faz do cante a linha condutora de sugestões de passeios pelo Alentejo. A brochura “𝟱 𝗽𝗮𝘀𝘀𝗲𝗶𝗼𝘀 𝗻𝗼 𝗔𝗹𝗲𝗻𝘁𝗲𝗷𝗼 𝗰𝗼𝗺 𝗼 𝗖𝗮𝗻𝘁𝗲 𝗻𝗼 𝗼𝘂𝘃𝗶𝗱𝗼” foi apresentada no passado dia 11 de abril, numa iniciativa organizada pela Câmara Municipal de Serpa em parceria com a Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo (ERT).
Para José Manuel Santos, presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, o desafio foi desenvolver um conjunto de roteiros e itinerários em que o canto fosse o mote.
“Queríamos que fosse um elemento agregador e que, a partir do Cante, nós pudéssemos apresentar um conjunto de linhas de descoberta do território. De alguma forma, daquilo que nós às vezes ignoramos, como uma segunda linha do Turismo no Alentejo. Uma segunda linha que às vezes nós concluímos que é mais bonita e mais diversa do que a primeira linha.”
No fundo trata-se de promover um Alentejo menos conhecido, mas, que no dizer do presidente da ERT. do Alentejo e Ribatejo é “o Alentejo cada vez é mais procurado, quer por turistas portugueses quer muito também por turistas internacionais”.
Coube a Catarina Valença, autora dos roteiros, a apresentação desta brochura, que pretende promover o património cultural e turístico da região, associando 5 propostas de passeios no território à tradição do Cante Alentejano: Pela Margem Esquerda (Serpa e Mourão); Terras do Vinho (Redondo e Borba); Vinhos de Talha e Fresco (Alvito, Cuba e Vidigueira); Campos Brancos (Beja, Castro Verde e Aljustrel) e Ares da Costa (Ourique e Odemira).
“A ideia foi escrever não para os alentejanos, mas para todos aqueles que queremos convidar a que venham até cá”, sempre com o mote do Cante e com “o foco na dimensão humana, na experiência turística com o outro e em comunhão”.
São cinco roteiros desenhados como propostas de circulação pelos 12 concelhos em que o cante é a “lente”. São uma sugestão de vivência do território baseado na identidade, na comunidade, nas pessoas, na experiência turística humanizada, que é a única que vai contar e que vai ser diferenciadora e atrativa”, referiu Catarina Valença.
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